sexta-feira, 8 de julho de 2011

Para avós e avôs

Netos  são como heranças.

Você os ganha sem  merecer. 
Sem  ter feito nada para  isso.                                    
De repente lhe caem do céu...   
O  neto é, realmente, o  sangue do seu sangue, filho do filho, mais  filho que filho mesmo...  
“Os netos são filhos com açúcar”
Cinquenta anos, cinquenta e cinco...
Você sente, obscuramente, que o tempo passou mais  depressa do que esperava.
Não  lhe incomoda envelhecer, é claro. 
A velhice tem suas  alegrias, as suas compensações.  
Todos  dizem isso, embora  você, pessoalmente, ainda  não as tenha descoberto, mas  acredita.
Todavia, também obscuramente, sente  que às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.  
Do tumulto da presença infantil ao seu redor.
Meu Deus, para onde foram as suas crianças? 
Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que tem sogro e sogra, cônjuge,
emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas.  
São homens e mulheres adultos; não são mais aqueles que você recorda. 
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto,
o doutor lhe coloca nos braços um bebê.
Completamente grátis, nisso é que está a maravilha.  
Sem dores, sem choros.
Aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida.  
Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um Filho seu que lhe é devolvido.
E o espantoso é que  todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância.  
Ao contrário, causaria espanto, decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração. 
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice.
São  amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. 
É quando vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz:
"Vó(ô) ", seu coração estala de felicidade, como pão no forno! 
Rachel  de Queiroz

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